domingo, 15 de junho de 2008

MEU REMORSO DE TODOS NÓS ...

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós …

ALEXANDRE O’NEILL, PORTUGAL

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A DECADÊNCIA DE ROMA

(…) No tempo em que o domínio de Roma se circunscrevia à Itália, a República facilmente podia subsistir. Todo o soldado era simultaneamente cidadão. Cada cônsul comandava um exército; e os outros cidadãos iam à guerra sob o comando daquele que lhe sucedia. Como as tropas não eram em número excessivo, havia o cuidado de não receber na milícia senão pessoas que possuíssem bens bastantes para terem interesse na conservação da cidade. Enfim, o Senado examinava de perto o comportamento dos generais e fazia-lhes ver que era melhor nem sequer pensarem em fazer fosse o que fosse contrariamente ao dever. Mas quando as legiões ultrapassaram os Alpes e o mar, os homens de guerra, que se tinha de deixar durante várias campanhas nos países subjugados, foram perdendo a pouco e pouco o espírito de cidadãos; e os generais, que dispunham dos exércitos e dos reinos, passaram a sentir a sua força e não mais conseguiram obedecer. (…)

MONTESQUIEU (1689-1755), Considerações sobre as causas da grandeza e decadência dos Romanos

quarta-feira, 11 de junho de 2008

HÖLDERLIN, O ETERNO


Entre as flores o seu coração estava em casa, como se fosse uma delas. A todas chamava pelo nome, por amor dava-lhes novos nomes mais belos e sabia exactamente a duração da vida de cada uma, na alegria. Tratava a Natureza como uma irmã, como um ser amado, de quem se gostaria de receber a primeira saudação da manhã. E de tudo isto se ocupava aquela serena criatura,absorta na sua felicidade, quando íamos passear ao prado ou à floresta. E tudo isto não era absolutamente nada cultivado, estabelecido. Era simplesmente desenvolvido , à medida que ela crescia. Trata-se, pois, de uma certeza eterna, por todo o lado comprovada: quanto mais inocente e bela é uma alma, tanto mais familiar ela se mantém em relação às outras vidas felizes, a essas que chamamos inanimadas.
HÖLDERLIN (1770-1843), Hipérion ou o Eremita da Grécia.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

DE TARDE


Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, in O Sentimento dum Ocidental

sábado, 7 de junho de 2008

HOMENS E PEIXES

No tempo de Noé sucedeu o dilúvio que cobriu e alagou o mundo, e de todos os animais, quais livraram melhor? Dos leões escaparam dois, leão e leoa, e assim dos outros animais da terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e assim das outras aves. E dos peixes? Todos escaparam: antes não só escaparam todos , mas ficaram muito mais largos que dantes, porque a terra e o mar tudo era mar. Pois se morreram naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as aves, por que não morreram também os peixes? Sabeis porquê? Diz Santo Ambrósio: porque os outros animais, como mais domésticos ou mais vizinhos, tinham mais comunicação com os homens; os peixes viviam longe e retirados deles. Facilmente pudera Deus fazer que as águas fossem venenosas e matassem todos os peixes, assim como afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais na força daquelas ervas com que, infeccionados os poços e lagos, a mesma água vos mata; mas como o dilúvio era um castigo universal que Deus dava aos homens por seus pecados, e ao mundo pelos pecados dos homens, foi altíssima providência da divina justiça que nele houvesse esta diversidade ou distinção, para que o mesmo mundo visse que da companhia dos homens lhe viera todo o mal: e por isso, os animais que viviam mais perto deles foram também castigados, e os que andavam longe ficaram livres. Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António


quarta-feira, 4 de junho de 2008

CASA

A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.


Carlos de Oliveira (1921-1981), Trabalho Poético

domingo, 1 de junho de 2008

EVOCANDO ALFREDO SARAMAGO

O pão ganhou estatuto de alimento principal durante a Idade Média e, nas classes populares, foi sustento e base de alimentação diária. A partir do seu estabelecimento na dieta foi, alternativamente, motivo de alegrias, de tristezas, de guerras e de paz. Tornou-se um símbolo do bem-estar mínimo. Haver ou não haver pão era o índice de avaliação que perdurou durante séculos. Reis, senhores e o poder municipal afadigaram-se para que houvesse pão, porque a sua falta era prenúncio de mal-estar e não raras vezes começo de revoltas e mola real de revoluções. A abundância de pão ou a sua falta traçaram a história dos últimos séculos.
Alfredo Saramago, Para uma História da Alimentação de Lisboa e seu Termo