sábado, 2 de agosto de 2008

SUSPENSÃO DESTE BLOGUE

ESTE BLOGUE SUSPENDE TEMPORARIAMENTE A SUA ACTIVIDADE, A QUAL SERÁ RETOMADA A PARTIR DO MÊS DE SETEMBRO.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

TRAGO-TE NA MINHA VIDA


Trago-te na minha vida como quem
escuta os passos musicais do tempo,
como as manhãs tocam a paisagem…

e amplamente te recebo dos horizontes da dor
que é a nossa distância de seres quase tudo.

Trago-te na minha vida como é possível
a noite trazer o luar.

Que movimento guia a tua essência inacabada?
Onde te cumpres perguntando a vida?
E que Pudor, estares em ti antes de seres?
Tu, a Expectante, mortalmente sossegada…

Trago-te na minha vida de mãos postas
coroada de solidão e suspensa
como uma rosa fechada.
VÍTOR MATOS E SÁ (1927-1975), in O Horizonte dos Dias (1952)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

OUTONO


Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.
Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
Mas os pais disseram olha é outono.
RUSSELL EDSON (1935-), O Túnel

terça-feira, 22 de julho de 2008

UM AMIGO


Num daqueles dias de outono, em que nos queima a vermelha labareda das folhas, um amigo pedia que lhe contasse uma história. “Salva-me a vida, conta-me uma história”. E eu recordei aquela mulher das Mil e Uma Noites, que encadeava, com doçura e desespero, uma história na outra, pois só a história infinita nos permite escapar à maldição da morte.
Um amigo é uma história que nos salva.

MÁRIO RUI DE OLIVEIRA (1973-), O Vento da Noite (2002)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

ANTERO SEGUNDO EÇA



[…]

Foi para S. Miguel, para o seu mundo mais doce, mais fácil … Depois uma tarde, como aquele filósofo Démonax, de quem conta Luciano, «concluindo que a vida lhe não convinha, saiu dela voluntariamente, e por isso muito deixou que pensar e murmurar aos homens de toda a Grécia». O que dele pensam os homens da nossa Grécia, não o sei – pois que de há muito na nossa Grécia uma apagada tristeza traz os homens desatentos e mudos. É morta, é morta a abelha que fazia o mel e a cera! Quem se nutre ainda do gostoso mel? Quem se alumia com a pura cera? Por mim penso, e com gratidão, que em Antero de Quental, me foi dado conhecer, neste mundo de pecado e de escuridade, alguém, filho querido de Deus, que muito padeceu porque muito pensou, que muito amou porque muito compreendeu, e que, simples entre os simples, pondo a sua vasta alma em curtos versos – era um Génio e era um Santo.

EÇA DE QUEIRÓS, "Um Génio que era um Santo", In Memoriam de Antero de Quental

terça-feira, 15 de julho de 2008

PACÍFICA FIRMEZA

Se estás disposto a nunca usar da violência, e sempre resistindo, torna-te forte de corpo e de alma; é a mais difícil de todas as atitudes; exige a constante vigilância de todos os movimentos do espírito, o domínio completo de todos os impulsos dos nervos e dos músculos rebeldes; a agressão é fácil contra o medo e também a primeira solução; para que, em todos os instantes, a possas pôr de lado e substituí-la pela tranquila recusa, não te deves fiar nos improvisos; a armadura de que te revestes nos momentos de crise é forjada dia a dia e antes deles; faz-se de meditação e de ginástica, de pensamento definido e preciso e de perfeitos comandos; quando menos se prevê surge o instante da decisão; rápida e firme, sem emoções ou sufocando-as, tem de trabalhar a máquina formada.

AGOSTINHO DA SILVA (1906-1994), Ir à Índia sem abandonar Portugal

domingo, 13 de julho de 2008

UM BISPO NOTÁVEL

Excerto da chamada “Carta a Salazar”, dirigida ao ditador por D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, em 13 de Julho de 1958:

“Apesar do meu feitio sedentário, não tenho nos últimos anos recusado as oportunidades que se me oferecem de viajar pela Europa; e tenho-o feito ao rés da terra e da gente e com toda a possível atenção. (…) Não poderei dizer quanto me aflige o já hoje exclusivo privilégio português do mendigo, do pé-descalço, do maltrapilho, do farrapo; nem sequer o nosso triste apanágio das mais altas médias de subalimentados, de crianças enxovalhadas e exangues e de rostos pálidos (da fome e do vício?).”

A ousadia custou ao nobilíssimo bispo o exílio, já que, tendo saído de Portugal após a redacção da “Carta” , em viagem de trabalho, Salazar lhe impediu o regresso, dando ordens para que a fronteira se lhe fechasse.


Transcrevemos, com a devida vénia, o poema do Digmº Professor João de Castro Nunes, que exprime um vigoroso protesto contra as arbitrariedades e violências do Poder sobre a liberdade do pensamento:

Crimes de opinião

Vem do fundo dos tempos um clamor,

de todos os quadrantes do universo,
contra o poder despótico, perverso,
que encheu a humanidade de pavor:

gritos de sofrimento nas fogueiras
ateadas pela Santa Inquisição,
gente de bem metida na prisão,
execuções sem culpas verdadeiras.

Quando passeio os olhos da memória
pelas vilezas de que fala a história,
um sentimento de asco me domina.

Perante os crimes que o poder inventa,
não há sabão, lexívia ou água benta
que lave a mão que as mentes assassina!