sábado, 3 de janeiro de 2009

CARTA AOS MEUS FILHOS

Neste início do ano de 2009, a ALTERNATIVA orgulha-se de apresentar este magnífico soneto da autoria do grande Poeta João de Castro Nunes, nosso muito querido Amigo, a quem ficamos a dever tantas e tão acariciantes palavras de estímulo ao nosso projecto. Não o fazemos como retribuição. Fazemo-lo como acto de Justiça. Como é possível que João de Castro Nunes não ande nas bocas do Povo, se faz poesia desta qualidade? Como é possível que os “intelectuais” da nossa Praça – triste praceta lusitana, cada vez mais indigente … - não exaltem a Obra de João de Castro Nunes? Por que somos tão provincianamente seguidistas ante a “ditadura intelectual” de meia dúzia de críticos falidos? É outra a nossa Cultura! CULTURA OUTRA é o nosso lema. Com João de Castro Nunes estamos com a “nossa gente”. Obrigado, Professor!

 

CARTA AOS MEUS FILHOS


Prestes a ir-me embora, filhos meus,
para encontrar-me com a vossa Mãe
que foi à minha frente ter com Deus,
isto vos digo para vosso bem:

amai tudo o que é bom na natueza,
tudo o que tem valor e qualidade,
nunca afirmando terdes a certeza
pois que ninguém é dono da verdade;

vossos pontos de vista defendei
com vigor e coragem, muito embora
sendo capazes de dizer: "Não sei!";

mas sobretudo, pela vida fora,
nunca façais papel de delatores
pelo que toca aos livre-pensadores!

João de Castro Nunes

domingo, 28 de dezembro de 2008

OS FILHOS

[…]

 Ao que tudo respondeu Dom Quixote:

- Os filhos, senhor, são pedaços das entranhas de seus pais, e, assim, se hão-de querer, ou bons ou maus que sejam, como se querem as almas que nos dão vida. Aos pais toca o encaminhá-los desde pequenos pelos passos da virtude, da boa criação e dos bons e cristãos costumes, para que quando grandes sejam báculos da velhice de seus pais e glória de sua posteridade.

 […]

 Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha

domingo, 21 de dezembro de 2008

AS QUATRO IDADES DA MULHER

Quatro caixinhas, fiéis

Presentes da Providência,

Resumem de cada Bela

As estações da existência.

 

Guarda a primeira caixinha

Inocentes rebuçados

A segunda as cartas doces

Dum cento de namorados.

 

Na terceira o vermelhão,

Que as faces vai besuntando,

Inventa as rosas postiças,

Quando as outras vão murchando.

 

Mas depois que o espelho quebra,

Da idade por crua lei,

Toda a ternura se encerra

Na caixinha do agnus Dei.

 

JOÃO DE LEMOS

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

VERSOS DE OURO

Não faças inúteis despesas

com os que ignoram em que

consiste o belo.

Avaro também não sejas:

a justa medida em tudo é excelente.

 

Não tomes jamais a peito

o que te poderia prejudicar

e reflecte antes de agir.

 

PITÁGORAS (Séc. VI a. C.), Versos de Ouro

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

EMANCIPAÇÃO PELO TRABALHO

A mocidade vive nas antecâmaras do governo como os antigos poetas do século passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os moços […] dizem-se republicanos, democratas, socialistas, […] mas não nos dão em si próprios o exemplo de que o primeiro dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é ele próprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as suas necessidades, trabalhar só, viver de si, que é o único meio de não ser explorado e de não explorar ninguém, afirmar-se finalmente na única forma da independência poderosa e legitima, na única dignidade verdadeira e segura – o trabalho pessoal e livre. A mocidade tem a mais elevada compreensão dos destinos sociais, da moral e da justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que há-de esterilizar a sua iniciativa: ela pensa, mas não trabalha.

 RAMALHO ORTIGÃO, As Farpas

sábado, 6 de dezembro de 2008

BIOGRAFIAS ERÓTICAS

Qualquer homem tem duas  biografias eróticas. Geralmente só se fala da primeira, que se compõe de uma lista de ligações e de encontros amorosos.

A mais interessante é, sem dúvida, a outra: a corte de mulheres que queríamos ter e que nos escaparam, a história dolorosa das virtualidades por cumprir.

Mas há uma terceira, uma misteriosa e inquietante categoria de  mulheres. Agradam-nos, nós agradamos-lhes, mas simultaneamente percebemos bem depressa que não podemos tê-las, porque na nossa relação com elas nos encontraríamos do outro lado da fronteira.

 MILAN KUNDERA, O livro do riso e do esquecimento

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

RETALHOS DA VIDA ...

 “Já lá vão dez anos” – dizia-me. “O lirismo acabou. Tenho o destino que me é devido. Tentei atravessar esses muros que estão à frente dos que começam sem a influência dum pai abastado ou duma camarilha. Cansei-me, desisti. A qualquer de nós resta sempre uma migalha; aceitei a que me estava destinada. Talvez não tivesse sabido lutar, talvez não o merecesse: encontramos sempre justificação para as nossas fraquezas. De qualquer dos modos, vou-me conformando. Trabalho, como, durmo. É o bastante para encher uma vida …”

 FERNANDO NAMORA, Retalhos da Vida de um Médico