domingo, 15 de março de 2009

AUSÊNCIA



Aquele claro Sol, que me mostrava

O caminho do Céu mais chão, mais certo,

E com seu novo raio ao longe e ao perto

Toda a sombra mortal m’afugentava,

 

Deixou a prisão triste, em que cá estava.

Eu fiquei cego e só, c’o passo incerto,

Perdido peregrino no deserto,

A que faltou a guia que o levava.

 

Assi, c’o esprito triste, o juízo escuro,

Suas santas pisadas vou buscando

Por vales e por campos e por montes.

 

Em toda a parte a vejo e a figuro.

Ela me toma a mão e vai guiando,

E meus olhos a seguem, feitos fontes.

 

ANTÓNIO FERREIRA (1528-1569)

segunda-feira, 9 de março de 2009

RIMBAUD E O AMOR

Uma bela manhã, num povo de gente adorável, um homem e uma mulher soberbos gritavam na praça pública: «Amigos, quero   que ela seja rainha!» «Quero ser rainha!». Ela ria e tremia. Ele falava de revelação, de prova terminada. Desfaleciam nos braços um do outro.

E efectivamente foram reis, por toda uma manhã, quando os véus carminados se ergueram sobre as casas, e por toda uma tarde, para os lados dos jardins de palmeiras.

 JEAN-ARTHUR RIMBAUD (1854-1891)

Iluminações – Uma Cerveja no Inferno (tradução de Mário Cesariny)

quinta-feira, 5 de março de 2009

AMOR-PRÓPRIO


SEM AMOR-PRÓPRIO NENHUMA VIDA É POSSÍVEL, NEM SEQUER A MAIS LEVE DECISÃO. SÓ DESESPERO E RIGIDEZ …

 

Hugo von Hofmannsthal (1874-1929), Livro dos Amigos

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

BORBULHAS ...

Quinta Feira, 1 de Janeiro

 FERIADO EM INGLATERRA, IRLANDA, ESCÓCIA E PAÍS DE GALES

 

Estas são as minhas resoluções para o Ano Novo:

  1. ajudar os cegos a atravessar a rua.
  2. pendurar as calças antes de me deitar.
  3. guardar os discos nas capas quando acabar de os ouvir.
  4. não começar a fumar.
  5. tratar bem o cão.
  6. não espremer as borbulhas.
  7. ajudar os pobres e os ignorantes.
  8. depois daqueles horríveis barulhos que ouvi lá em baixo ontem à noite, prometi também nunca beber álcool.

 

O meu pai embebedou o cão a noite passada com brandy, na festa. Se a SPA souber, podem vir chateá-lo. Já passaram oito dias do Natal mas a minha mãe ainda não usou o avental de plástico verde que eu lhe dei! Para o ano que vem só leva sais de banho.

 

SUE TOWNSEND, O Diário Secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4

domingo, 22 de fevereiro de 2009

HOMENAGEM A GOETHE


Vi-me, num sonho, no gabinete de trabalho de Goethe. Não havia qualquer semelhança com o de Weimar. Reparei que era muito pequeno e tinha uma única janela. O lado mais estreito da secretária estava encostado à parede em frente. O poeta, em idade muito avançada, estava sentado a escrever. Eu deixei-me ficar ao lado, até que ele interrompeu o trabalho e me ofereceu uma pequena jarra, um vaso antigo. Eu fi-la girar entre as mãos. O calor na sala era insuportável. Goethe levantou-se e foi comigo para a sala ao lado, onde estava posta a mesa comprida para todos os meus parentes. Mas parecia destinada a muitas mais pessoas do que estes. Devia estar posta também para os antepassados. Sentei-me ao lado de Goethe na cabeceira direita da mesa. Quando a refeição terminou, ele levantou-se com dificuldade e eu, com um gesto, pedi permissão para o amparar. Ao tocar-lhe no cotovelo comecei a chorar de comoção.

 WALTER BENJAMIN (1892-1940), Imagens de Pensamento

sábado, 14 de fevereiro de 2009

VIDAS FELIZES

Entre as flores o seu coração estava em casa, como se fosse uma delas. A todas chamava pelo nome, por amor dava-lhes novas designações mais belas e sabia exactamente a duração da vida de cada uma, na alegria.

[…]

E tudo isto não era absolutamente nada estabelecido, cultivado, mas simplesmente desenvolvido à medida que ela crescia. Trata-se, pois, de uma certeza eterna, por todo o lado comprovada: quanto mais inocente e bela é uma alma, tanto mais familiar ela é às outras vidas felizes, a que chamamos inanimadas.

 FRIEDRICH HÖLDERLIN (1770-1843), Hipérion ou o Eremita da Grécia

domingo, 8 de fevereiro de 2009

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei-de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes (1913-1980)

PS da Direcção da ALTERNATIVA : «Vinicius, que saudades nós temos de ti!»