segunda-feira, 27 de abril de 2009

OS GIRASSÓIS


Assim fremente e nua

a luz só pode ser dos girassóis.

Estou tão orgulhoso

por esta flor difícil ter entrado pela casa.

É talvez o último verão,

tão feito de abandono é meu desejo.

Mas estou orgulhoso dos girassóis.

Como se fora seu irmão.

 

EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005), in A Religião do Girassol

domingo, 26 de abril de 2009

OUTROS SINAIS

Navegamos por águas longe e pelo nevoeiro. A bordo do nosso navio fantasma SOMOS O QUE SOMOS e ao nosso redor apenas o chapinhar das águas misteriosamente calmas de encontro ao casco nos impressiona e informa. Acreditamos que jamais o homem será escravo enquanto houver um só Poeta, isolado e ignorado que seja, a reclamar a si mesmo a decisão ou indecisão magníficas.

(….)

Agrada-me profundamente saber que eu estou num ponto do Universo que necessita ser esticado para o lado de fora, quero dizer: para a minha frente. (…)

O Futuro é tão antigo como o Passado. E ao caminharmos para o Futuro é o Passado que conquistamos!

(….)

 

ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928- 1953), Poesia

quarta-feira, 15 de abril de 2009

PATINHO FEIO

Para lá de não ser nenhum poço de virtudes (nem charco, quanto mais poço), tenho de confessar que sou feiota. Para já. Sou alta de mais para os meus 14 anos, o que faz, por um lado, que a malta toda lá da escola comece com aquelas graças parvas, «então como é que está o tempo lá em cima?», «quando chegares cá abaixo fecha o pára-quedas», coisas assim, vocês sabem; e, por outro lado, faz com que de cada vez que a minha mãe ou o meu pai (que nisto, benza-os Deus! são iguaizinhos) me apresentam a qualquer desconhecido lá das relações deles, avancem logo com a frase «por este andar não sei onde é que ela vai parar». Ao que o tal desconhecido normalmente reage com a pergunta «a quem é que ela sai assim?» cuja eloquente resposta depende de quem a dá. Se a  pergunta é feita à minha mãe, ela diz «sai ao pai»; se é feita ao meu pai, ele diz «sai à mãe». Claro que isto só significa que nenhum deles quer arcar com a culpa de ter contribuído para o nascimento de um patinho feio, mas daqueles mesmo feios, que nunca chegarão a cisne.

 

ALICE VIEIRA, Úrsula, a Maior

terça-feira, 7 de abril de 2009

COZINHAR A COZINHA



A cozinha – Sem o som dos passarinhos de uma dona de casa que trauteie uma melodia em voga enquanto apronta o jantar para as oito em ponto. Minuciosa. Sem os risos e as botas dos homens que chegaram da caça e vão por ali entornar vinho e pegadas de lama só porque há uma maneira especial de comer aquele bicho bravio. Como o viram fazer ao avô, ainda pequenos, quando por graça lhes davam uma batata para descascar. A cozinha moderna são uns mosaicos polidos pela nostalgia de comer (a alegria). Sítio anacrónico. Mostruário de utensílios muito quietos, e funcionais, no meio dos quais se aquece e faz e volta a aquecer café e se espalham migalhas de tostas e facas sujas de lacticínios vários.


ALEXANDRE MELO,  Velocidade Contemporânea

quinta-feira, 2 de abril de 2009

JORGE DE SENA - EDITH PIAF



Quem tinha assim a morte

na sua voz

e na vida,

Quem como ela perdeu

toda a alegria e toda a esperança

é que pode cantar

com esta ciência do desespero

de ser-se um ser humano

entre os humanos

que o são tão pouco.

 

JORGE DE SENA , A Piaf 

sábado, 28 de março de 2009

DEFENDER A LIBERDADE


A Democracia é o regime que garante no máximo os direitos de todos os indivíduos, o que a leva, por definição, a caracterizar-se desde logo como igualitária. Não é para mim, nem para os do meu grupo, que eu exijo a liberdade; exijo-a, pelo contrário, para todos os homens, seja qual for a sua condição, grupo ou partido. É claro que um verdadeiro liberal se bateria mesmo pela liberdade dos seus adversários, e que nada o humilharia mais que o seu silêncio, nem nada o revoltaria tanto como uma luta de ideias que se não fundasse no rigoroso princípio da reciprocidade. Não exageraremos dizendo que essa liberdade de privilégio ser-lhe-ia mais dura que a escravidão.


 Raul Proença, Páginas de Política

sexta-feira, 20 de março de 2009

FOGOS FÁTUOS (OU O INFERNO IMAGINADO?)

Uns rapazes guardavam bezerros, que pastavam. A um deles, que andava mais afastado, apareceu um homem com dois sacos atados. Pediu-lhe que os desatasse com os dentes. Insistiu para que ele os desatasse depressa. O rapaz olhou-o e viu que lhe saíam chamas da boca. Fugiu e foi chamar companheiros, que acudiram e já não chegaram a ver nada.

 Horta de Literatura  de Cordel