quarta-feira, 9 de julho de 2008

MEL NOVO


Mel novo chupado no próprio favo. Era uma das melhores festas de casa da minha avó. Vinha uma grande terrina à mesa, cogulada de troços de favo doirado, e a minha gulodice logo se propunha (o que os olhos devoram!) sorver tudo de uma assentada, não poupando nem a cera. Punham-me no prato uma talhada imensa (que eu achava sempre pequenina) e a avozinha dizia-me: - “Repara bem, filho, que o mel das abelhas de Nosso Senhor não se pode comer sem vontade. Comido com vontade não há gosto que o iguale, mas sobreposse dá dores que matam …”. E por mais que eu sopeasse a gula e demorasse a refeição, logo me enfartava, deixando o bocado em meio. Ficava-me na boca um suave, mas impertinente, saibo a cera, que no Algarve rescende a rosmaninho…

MANUEL TEIXEIRA GOMES (1860-1941), Carnaval Literário

3 comentários:

Germana disse...

Soube-me a infância...

Obrigada

Anónimo disse...

"O QUE OS OLHOS DEVORAVAM!"
Teixeira Gomes

Para tudo é preciso haver vontade;
fazer as coisas por obrigação
carece desde logo de emoção
pela insatisfação que nos invade.

Motivo é, pois, de contrariedade
as coisas não fazer por devoção;
agir apenas por imposição
é contra a nossa humana identidade.

É como beber água sem ter sede
ou num festim comer à sobreoosse
por mais especial que seja o doce.

Com fome ou apetite nada impede
que um pedaço de broa bolorenta
nos saiba à refeição mais opulenta!

João de Castro Nunes

Anónimo disse...

BEBER COM SEDE

De Darío se conta, o rei dos Persas,
que fugindo a Alexandre, que o vencera,
com as restantes forças já dispesas
foi ter a um rio, em que se retempera.

Estava o leito do citado rio
repleto de cadáveres nojentos,
o que lhe provocou certo arrepio
ao ver aqueles corpos fedorentos.

Ia morto de sede e, num rompante,
bebeu dessa água suja e repelente
até se saciar... sofregamente.

É que, como ele próprio comentou,
nunca na corte, enquanto ele reinou,
o deixaram ter sede... um só instante!

João de Castro Nunes