
Tal é a legenda dos velhos caminhos. […] Traçou-os o formigueiro humano com seu passo e repasso secular e os rebanhos no vaivém periódico entre a montanha e o prado. Desdenham da linha recta, como a mais fastidiosa de todas. O homem tinha o tempo por si e dons imperiosos de poeta. Esses caminhos, tão vagabundos como maviosos, hoje não seriam mais possíveis, pois que o nosso entendimento procede segundo outras coordenadas. Mas na Beira essas veredas medievais de feirantes e almocreves, de pé posto, sendas de cabras, atalhos, carreirinhos, para a fonte e para a mata, do poviléu, já antes do castro e mesmo da orca, eram todos assim: saltantes, sumidos e sinuosos como as ruas direitas das velhas cidades pré-afonsinas.
AQUILINO RIBEIRO (1885-1963), Arcas Encoiradas
AQUILINO RIBEIRO (1885-1963), Arcas Encoiradas




