terça-feira, 9 de setembro de 2008

VELHOS CAMINHOS


Tal é a legenda dos velhos caminhos. […] Traçou-os o formigueiro humano com seu passo e repasso secular e os rebanhos no vaivém periódico entre a montanha e o prado. Desdenham da linha recta, como a mais fastidiosa de todas. O homem tinha o tempo por si e dons imperiosos de poeta. Esses caminhos, tão vagabundos como maviosos, hoje não seriam mais possíveis, pois que o nosso entendimento procede segundo outras coordenadas. Mas na Beira essas veredas medievais de feirantes e almocreves, de pé posto, sendas de cabras, atalhos, carreirinhos, para a fonte e para a mata, do poviléu, já antes do castro e mesmo da orca, eram todos assim: saltantes, sumidos e sinuosos como as ruas direitas das velhas cidades pré-afonsinas.

AQUILINO RIBEIRO (1885-1963), Arcas Encoiradas

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

CONSTITUIÇÃO DOS SÍMBOLOS

Os parnasianos tomam a coisa inteiramente e mostram-na; mas, assim, têm pouco mistério, subtraem às almas a alegria deliciosa de acreditar que criam. Nomear um objecto significa suprimir três quartos da fruição da poesia, que consiste em adivinhar pouco a pouco. Sugeri-lo, eis o sonho. É o uso perfeito deste mistério que constitui o símbolo: evocar um objecto para mostrar um estado de alma, ou, então, escolher um objecto e fazê-lo libertar um estado de alma, mediante uma série de decifrações.

Stéphane Mallarmé, Investigação sobre a evolução literária (1897)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

OUTRA (CANÇÃO)


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!

ANTÓNIO BOTTO (1897-1959)

sábado, 2 de agosto de 2008

SUSPENSÃO DESTE BLOGUE

ESTE BLOGUE SUSPENDE TEMPORARIAMENTE A SUA ACTIVIDADE, A QUAL SERÁ RETOMADA A PARTIR DO MÊS DE SETEMBRO.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

TRAGO-TE NA MINHA VIDA


Trago-te na minha vida como quem
escuta os passos musicais do tempo,
como as manhãs tocam a paisagem…

e amplamente te recebo dos horizontes da dor
que é a nossa distância de seres quase tudo.

Trago-te na minha vida como é possível
a noite trazer o luar.

Que movimento guia a tua essência inacabada?
Onde te cumpres perguntando a vida?
E que Pudor, estares em ti antes de seres?
Tu, a Expectante, mortalmente sossegada…

Trago-te na minha vida de mãos postas
coroada de solidão e suspensa
como uma rosa fechada.
VÍTOR MATOS E SÁ (1927-1975), in O Horizonte dos Dias (1952)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

OUTONO


Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.
Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
Mas os pais disseram olha é outono.
RUSSELL EDSON (1935-), O Túnel

terça-feira, 22 de julho de 2008

UM AMIGO


Num daqueles dias de outono, em que nos queima a vermelha labareda das folhas, um amigo pedia que lhe contasse uma história. “Salva-me a vida, conta-me uma história”. E eu recordei aquela mulher das Mil e Uma Noites, que encadeava, com doçura e desespero, uma história na outra, pois só a história infinita nos permite escapar à maldição da morte.
Um amigo é uma história que nos salva.

MÁRIO RUI DE OLIVEIRA (1973-), O Vento da Noite (2002)